desespero

Por que persistir na espera do sorriso?
Se pudesse chorar no momento
o gosto salgado que me estraga a garganta
e apertar os olhos, machucando-os,
porque não aprenderam a ver a realidade!

Se pudesse estourar os tímpanos
que aguardam palavras de amor
e amputar os braços morenos
que esperam o abraço branco!

Se pudesse esmagar o corpo inútil
que arde todo num desejo puro!..
Por que persistir na espera do sorriso?

Se pudesse chorar,
chutar os pensamentos,
marcar os lábios de sangue,
quebrar os dentes,
cair na rua deixando a vida
passar por cima de mim!..
Se pudesse deixar a vida
passar por cima de mim...
Se pudesse chorar!..

Talvez não dê para ver a flor despetalar
naturalmente...
Talvez caia, antes, da haste,
estupidamente!
Talvez perca o perfume,
inexplicavelmente!
Talvez caia da haste,
antecipadamente...

Há um medo de ver a morte no momento errado...
A flor está negra, assustada,
deixou de enfeitar-se,
fechou-se,
exala um perfume amargo!..

Por que persistir na espera do sorriso?
- Ele não vem!!!
Se pudesse chorar...

Talvez não vejas a flor despetalar,
naturalmente...


Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 2:15hs da madrugada, do dia 26 de julho, de um ano qualquer.

perdi...

Perdi...
Há outra flor no meu lugar de honra.

Perdi...
Quando as luzes se apagarem irei chorar.
Agora, não!

Depois, no escuro,
quando nem eu puder enxergar...

Se pudesse apagar a vida do meu corpo
e dormir tranqüila quando as luzes se apagarem...

Se pudesse apagar a vida do meu corpo
e continuar sonhando pela eternidade...

Ah, se pudesse!..
Escolheria sonhos de paz,
não haveria gente, apenas flores...
Até eu gostaria de ser flor!
Desmancharia noites em perfume
e alegrias em hastes de vingança
àqueles que ameaçassem nossa comunhão de amor...

Quando as luzes se apagarem irei chorar.
PRECISO!
Continuar apertando tudo por dentro,
amassando sonhos...
NÃO POSSO!

Quero chorar e depois dormir.
PRÁ QUÊ ACORDAR?!!!

Perdi...
Há outra flor no meu lugar de honra.
Perdi...

Quando as luzes se apagarem irei chorar,
AGORA, NÃO!!!


Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 2:15hs da madrugada, do dia 26 de julho, de um ano qualquer...

um poema de saudade

Poema...
Poema de estrela,
na estrela da noite,
na noite de um mundo,
num mundo de vida
na vida de alguém.
Poema...
Poema canção,
num canto saudade,
saudosa distância,
tão perto no amor,
num amor, de verdade
não falsa de alguém.
Poema...
Poema cantante,
chorando saudade,
sem rima falada.
Poema...
Poema de alguém por alguém,
tão simples, sem nada,
de mim prá você!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro.
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Este inocente poema, escrito aos quase vinte anos de idade,
ofereci a alguém que possuía olhos negros, tão difíceis de encontrar,
pelas homenagens que sempre fez aos meus verdes olhos...
Se, um dia, pelos acasos da vida, encontrar esta página,
saberá que me refiro aos inocentes momentos que desfrutamos juntos...

a uma criança

Desejaria mirar as paisagens no horizonte,
bem além que o próprio além,
tendo os olhos cheios de perguntas,
me encontrando nas respostas!..

Olhar a praia imensa,
branca... tão branca, como tela virgem,
onde alguém rabiscou, com maestria,
as ondas grandes, o céu, coqueiros,
jangadas e até barquinhos de papel!

Pular maré com ilusões,
fugir da horrível saudade,
brincar de esconde-esconde com o amor...

Passar de estrela em estrela,
vestir-me de lua,
procurar, no céu escuro,
um sonho meu, que fugiu durante o dia,
nas asas brancas, prateadas,
do passarinho ilusão!

Olhar o mar, cantar estrelas,
brincar de amor, sorrir sonhar...
Mas, não com esta minh'alma, hoje, consciente,
da inocência dos seus olhos de criança...
Olhos cheios de perguntas,
mas, vazios de respostas!..


Sílvia Mota.
Piquete.

perdas

Bolhinhas de sabão, o vento está tão forte!
Vai levá-las prá longe, distante do além.
Bolhinhas de sabão, como eu não tenho sorte!
Vocês estão levando os meus sonhos também...

Se todas vão partindo em busca de aventura,
de novas coisas belas, mundos mais risonhos,
de que me vale tudo? Somente a desventura
já chora de tristeza ao me roubarem sonhos...

Bolhinhas de sabão, bolhinhas de sabão!..
Já não me escutam mais. Partiram na ilusão,
tal qual num dia, há tempos, eu também parti...

Mas, tudo era tão triste e eu pude regressar...
Bolhinhas de sabão!!! É tarde. Vão-se estourar,
evaporando os sonhos que jamais vivi!


Sílvia Mota.
Piquete.

crônica para minha mãe

perdida...

minha mãe, uma flor!

relembrando o final do poema perdido...

"Minha Mãe é o ser imarcescível
que descrevo nestas simples linhas.
Seu amor é tão grande, imensurável,
que já não cabe nestas frases minhas."

ainda o amo

relembrando, pouco a pouco, os versos do primeiro poema, não mais encontrado...

quando amor, você me fitou,
havia em seu olhar tanta ternura
em seu sorriso tanta [candura?]
que o meu coração se apaixonou.
[...]

Sílvia Mota.
Piquete, São Paulo,[196?]